segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"As reuniões em um assentamento rural como rituais", John Comerford, fichamento...

1. Associação dos Trabalhadores Rurais da Fazenda São Bernardo promove reuniões (assembléias) semanais => reunir-se para discutir como aspecto importante e bem estabelecido da vida dos assentados. Associação promove outras reuniões: cursos técnicos (promovidos por ONGs ou Emater), para formação política (CPT ou MST), visando organização regional ou estadual dos assentamentos. A realização de reuniões como indicativo do grau de organização do assentamento.

2. As pessoas fazem uma oração, realizam uma reflexão em torno de temas religiosos, ouvem os informes transmitidos pelos dirigentes ou de quem mais queira divulgar uma informação que considere de interesse geral, e discutem os pontos e pauta previamente definidos, procurando chegar a decisões a respeito de cada ponto através do consenso ou do voto. Assuntos como (I) “projetos” para o assentamento; (II) administração dos recursos comunitários; (III) admissão de novos sócios; (IV) as vendas de lotes; (V) a atuação de cada assentado em relação a recursos obtidos através de projetos para o assentamento e (VI) questões como apoio a candidatos nas eleições, a outros acampamentos e assentamentos, formas de mobilização e pressão para levar reivindicações da vida do assentamento. Assembléias começam no início da noite, com razoável pontualidade, por vezes se prolongam bastante noite adentro.

3. Além de reunir dirigentes e membros, as reuniões constituem uma oportunidade para o encontro, pouco comum no cotidiano, entre aqueles assentados que não têm grande proximidade pessoal e até mesmo aqueles que, estando “rompidos”, procuram evitar-se. As questões debatidas, os informes, as posições, os conflitos, as presenças e ausências são matéria de comentário e avaliação para um conjunto mais amplo do que aqueles que estão imediatamente presentes na reunião: opiniões e questões vão se delineando, posições vão sendo tomadas e colocações a serem feitas nas reuniões vão sendo “ensaiadas” através de conversas no sítio, na cidade, no boteco, em visitas e “fofocas”, discussões de dirigentes, encontros entre dirigentes e assessores, técnicos ou autoridades. Desta forma, as reuniões tornam-se o principal “foco” da vida da Associação.

4. As reuniões buscam “fins práticos”: (I) resolver e remeter outras à pauta que será discutida em assembléia; (II) transmitir certos conteúdos (“cursos”). O grau de sucesso é muito variável, mas independente dos resultados, elas acabam por ter uma série de efeitos sociais relativamente imprevistos, porém fundamentais para o processo de formação do grupo e para a dinâmica das relações em que estão envolvidos os assentados.

5. As famílias que participaram da ocupação de terras na Baixada Fluminense formavam um conjunto bastante heterogêneo e dispersivo. Muitas pessoas não se conheciam e tinham uma experiência anterior extremamente diversificada em relação ao mundo do trabalho. Os recursos econômicos também eram bastante diversificados, bem como as afinidades religiosas e as experiências em relação ao mundo da política. A escolaridade era variável. As experiências de migração eram recorrentes.

6. Havia expectativa generalizada de que implementado o assentamento e recebidos os lotes, desapareceria a necessidade de mobilização e organização coletiva. Neste sentido, o “sonho” de ter um pedaço de terra remetia à possibilidade de se colocar em condições mais favoráveis para estabelecer uma certa organização interna da família e estabelecer um certo padrão de sociabilidade mais amplo. O acesso à terra assume o sentido de “desbloquear” certas possibilidades de reproduzir um “saber-fazer” social que se encontram impedidas ou dificultadas nas condições em que muitos dos assentados viviam (na cidade ou no campo).

7. O autor enfatiza uma série de redes sociais com limites variáveis, com laços tanto “horizontais” (com “iguais”) quanto “verticais” (com pessoas de posição social “superior”), baseados em princípios como parentesco, amizade, compadrio, relações de patronagem/clientelismo, afinidades religiosas, e com os “centros” dessas redes definindo-se em termos de diferentes critérios de prestígio social. Os limites destas redes não coincidem com os do limites da “Fazenda São Bernardo”. As redes agrupam os assentados de maneiras diversificadas, envolvendo inclusões e exclusões, formas de aproximação e criação de laços, bem como afastamentos, tensões e evitamentos. As tensões podem dificultar a convivência e a ação conjunta dos moradores e a existência de uma associação na qual os assentados estejam de fato envolvidos. Além destas tensões derivadas da não-coincidência de redes sociais surgidas espontaneamente, o autor destaca a possibilidade de ver o assentamento como um espaço de disputas pela legitimidade dos dirigentes ou lideranças entre os assentados, que remetem a um campo de disputas mais amplo (legitimidade da representação dos camponeses, gestão da “agricultura” e dos assentamentos), que também não coincidem com os limites da “Fazenda São Bernardo”.

8. As reuniões se colocam no quadro mais geral em que sobressaem (I) as não-coincidências entre as redes de relações que se formam espontaneamente e o grupo corporado que dirigentes, assessores, técnicos e membros da associação muitas vezes querem formar; (II) a existência de disputas pela legitimidade de representação do grupo e, mais amplamente, dos assentados e dos trabalhadores rurais; e (III) a produção de um discurso dos legitimados do assentamento, dos assentados e dos seus dirigentes.

9. Primeiro efeito: deriva da própria freqüência com que são realizadas => construção da imagem social da Associação e do assentamento e para a auto-estima dos seus membros e dirigentes. Momento que dá uma certa visibilidade ao assentamento, à Associação e a categorias mais genéricas (“trabalhadores da Fazenda São Bernardo”, “aliados” e “amigos” destes trabalhadores => construção da imagem do assentamento enquanto unidade social e uma imagem do contexto em que ele se insere.

10. Pautas de questões, discussões, informes, momentos de reflexão religiosa => papel central no delineamento dos limites do que diz respeito à vida associativa, à comunidade. As fronteiras entre aquilo que diz e aquilo que não diz respeito à “comunidade” são móveis, e os procedimentos da reunião são fundamentais para orientar essa mobilidade. As reuniões envolvem momentos tensos e conflitos mais ou menos abertos, sendo um espaço para encontro entre aqueles cujas relações estão “rompidas” e também entre aqueles que disputam a legitimidade no âmbito da direção da Associação ou entre aqueles que disputam a legitimidade no âmbito de organizações ou instituições que têm interesse no assentamento => tornam-se um importante “espaço público” em que divergências podem ser explicitadas, posições tomadas, proximidades e afastamentos marcados. As reuniões criam “regras” específicas para essa “arena” de disputas e conflitos, sendo que um certo controle é estabelecido pela alternância entre momentos em que sobressaem os símbolos de união e momentos em que os conflitos e tensões podem ser colocados mais ou menos abertamente. Neste sentido, tem vantagens aquele que dominar bem, que tiver internalizados os procedimentos de reunião.

11. Ao transformar as tensões em discussões públicas, comentadas e avaliadas, as reuniões se constituem em um foco para a construção do prestígio e da legitimidade dos dirigentes, criando novos tipos de tensão. Outro efeito “inesperado” refere-se a um conjunto de pessoas que termina por se destacar (falando mais, opinando, delimitando o rumo dos eventos). As reuniões são como um momento de “apresentação pública”, em que uma parcela dos freqüentadores assume a posição de “espectador” e outra a de “centro das atenções”, de “foco” do evento. Neste sentido, as reuniões são fundamentais para o surgimento de “figuras públicas” no assentamento, tornam-se “caixas de ressonância” => pessoas vistas como tendo um dom para a liderança em uma operação de “magia social” em que o domínio sobre certos procedimentos e a percepção desse domínio pela opinião social têm peso importante na construção do prestígio e do poder de um determinado agente ou categoria de agentes.

12. As reuniões podem ser analisadas como rituais, se colocando como momentos importantes para o desenvolvimento de dramas sociais ao demarcar uma certa “ruptura” em relação ao “cotidiano”, com destaque para aspectos, símbolos e valores deste cotidiano, realizando um trabalho de elaboração simbólica sobre esses elementos por meio de seqüências de procedimentos que alternam momentos de concentração e dispersão, de seriedade e humor, de unificação e de polarização. Desta forma, afirmam ou colocam em questão o prestígio dos que procuram se pôr em posição de destaque, delimitando um conjunto de pessoas com o qual se identifica o grupo.

REFERÊNCIA:
COSTA, L.F.C; FLEXOR, G; SANTOS, R. (orgs.) Mundo Rural Brasileiro. Ensaios
interdisciplinares Mauad X-EDUR, Rio de Janeiro - Seropédica, 2008.

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