segunda-feira, 17 de junho de 2013

Protestos com a internet: o imbricamento sociotécnico


Como entender o papel das novas tecnologias da informação e comunicação, em especial a internet, nas configurações recentes dos protestos que ocorreram em várias cidades brasileiras contra o aumento das passagens de ônibus? Com esta pergunta em mente, neste espaço, vou chamar atenção para alguns pontos que percebo serem abordados de forma periférica e tímida nas análises acerca dos protestos em curso, com o objetivo de contribuir para uma discussão sobre ação coletiva levada a cabo com a internet.

Começo por destacar que vejo a internet como um conjunto de numerosas tecnologias, práticas e contextos que são usadas, entendidas e assimiladas por diversas pessoas em algum lugar em particular. Com isso, ao invés de pensar em uma separação entre o online e o offline, proponho pensar em um imbricamento sociotécnico, tendo em vista a ubiquidade cada vez maior com que as tecnologias da internet participam da vida cotidiana, ainda que exista uma divisão digital.

Ainda que fique incomodado com a visão unificada e simplificada da internet como uma matriz sociotécnica que serve de base para as ações em uma sociedade em rede, pois acredito que existe uma pluralidade de redes com a internet, que são muito mais fluídas e complexas, concordo com Manuel Castells quando ele assinala que os protestos mais recentes, tais como a Primavera Árabe, o Ocuppy Wall Street, os indignados e os protestos que estamos presenciando no contexto brasileiro apresentam uma dinâmica que se inicia em redes da internet, vai para as ruas, volta para a rede, retorna para as ruas e permanece vivo nas redes, ainda que em algum momento não voltem para as ruas.

Neste momento de recolhimento, estes movimentos parecem ter “morrido” porque “não alcançaram os resultados”. No entanto, parece que seus manifestantes se mantém conectados e trocando experiências, esperando o momento adequado para reaparecerem no espaço público. Só o tempo poderá dizer se é isso mesmo, mas o retorno dos manifestantes no Egito contra o regime que se instalou depois da queda de Mubarak parece dar pistas neste sentido.

Esta dinâmica de retroalimentação entre as redes com a internet e as ruas colocam alguns desafios para uma análise da ação coletiva em curso, pois não se trata mais de um movimento social, com suas lideranças claramente definidas e uma pauta de reivindicações para negociar com os governos. Isso faz com que alguns analistas não consigam ver as práticas que estão em jogo nos contextos em que acontecem, ficando mais preocupados em enquadrá-las em modelos formatados para uma época em que a internet não estava tão difundida quanto hoje em dia. Vale destacar que a ideia de um imbricamento sociotécnico abre possibilidades analíticas que vão além de um mero determinismo tecnológico.

Outro desafio que afirma a importância das tecnologias da internet é o caráter descentralizado, multicêntrico e sem lideranças formais, que não é uma novidade destes movimentos. Afinal, pelo menos desde os protestos anti-globalização, que tiveram seu marco em Seattle no ano de 1999, e talvez desde o levante zapatista, em 1994, estas características já se faziam presentes. Uma diferença são as mudanças na internet. Tanto em 1994, quanto em 1999, a comunicação pela rede se fazia basicamente por listas de discussão e troca de e-mails, enquanto hoje em dia esta comunicação se dá com Facebook, Youtube, Twitter e Whatsapp, bem como com os telefones celulares cada vez mais conectados. Essa mudança tornou a capacidade de mobilização muito mais rápida e voltada para as redes de contatos pessoais dos manifestantes, enquanto em 1999 eram as organizações que capitaneavam os processos.

Bem, essas são algumas reflexões, tendo em vista que os protestos ainda estão acontecendo e parece que, no caso brasileiro, vão acompanhar os mega-eventos programados. Mas vale também atentar que este imbricamento sociotécnico não se verifica apenas do lado de quem se indigna e se manifesta. O aparato de repressão e investigação também faz uso dele. Tanto que nas manifestações que fui pude perceber vários policiais filmando os atos com telefones celulares. Certamente não era para postar em sites de redes sociais.


Por fim, um aspecto sintomático da importância das tecnologias da internet pode ser vista mediante a atitude das polícias de confiscar telefones celulares dos manifestantes ou de procurar suspeitos em sites de redes sociais. Ao apreender os celulares, o aparato policial tenta separar o “sócio” do “técnico”, desfazendo a possibilidade de compartilhamento das imagens com as redes de contatos dos manifestantes. Neste sentido, cada vez mais, o celular é uma arma quente dos manifestantes, que encontra seus alvos nas redes que se configuram com a internet, onde se faz possível a propagação da comoção e da esperança de novos engajamentos na ação coletiva, em especial mediante a violência policial que tem sido empregada contra os protestos nas ruas.

2 comentários:

Douglas Bahiense disse...

Ótima análise, Colibri!. Faco entretanto uma pergunta sobre o possível desenrolar das manifestacoes: Como modificar realmente alguma coisa sem um programa (a palavra nao é boa) determinado, ou melhor, como se muda algo apenas com idéias e vontades (ou seriam insatisfacoes?) difusas?
Quando a poeira baixar e o movimento se ausentar (talvez temporariamente) do espaco público e permanecer apenas no virtual (como você bem disse) alguém vai ter que apresentar algo concreto para negociar com as instituicoes. Esse foi o problema no Egito: quem passou a dar as cartas foi a irmandade mulcumana que já tinha um ideário muito bem estruturado. Esse movimento nao pode ser apenas um desabafo momentâneo (como pareceu ser os movimentos "Occupies") e depois que todo mundo tiver gritado nas ruas, liberando o estresse, voltam para o computador para continuar gritando no twitter, etc. Os movimentos "Occupies" (em português, aliás, dá ótimass palavras ocupais ou ocupai! :-) nao só parecem ter morrido, como os governos do G8 muito pouco fizeram do que foi "pedido" em relacao ao mercado financeiro...

Marcelo Castañeda disse...

Oi Douglas, desculpe a demora em responder. Só vi seu comentário agora. Acho que você chama atenção para um ponto importante, passada a multidão são as organizações que ocupam o vácuo deixado. E se apropriam da força da multidão, já que não vejo como um movimento social. De certa forma, conseguimos reverter o aumento das passagens, conquista essa que chamou inúmeras pautas. Estas pautas serão apropriadas de diferentes formas por diferentes organizações, é o que acho.