sábado, 11 de junho de 2011

Relações duradouras: entre interessantes e ingênuos - uma visão de tweets de Flávio Gikovate na véspera do Dia dos Namorados*

O que faz uma pessoa ser "interessante"?



É claro que isso depende dos olhos de cada observador, mas alguns requisitos são quase universais. A pessoa interessante é aquela cujo "repertório" se renova continuamente. Ou seja, que sempre tem novas idéias e pontos de vista atualizados. As pessoas interessantes sentem genuíno prazer em aprender. Isso implica um cérebro "poroso" que permite a entrada de novos pontos de vista.



São mais interessantes aquelas pessoas discretas e um tanto enigmáticas: as que falam pouco de si e que se deixam conhecer mais lentamente. As conversas com pessoas que se reciclam continuamente são ricas e surpreendentes. O interesse em estar com elas é permanente e não há tédio.



São interessantes as pessoas bem humoradas e de humor estável. Elas estão de bem com a vida apesar de conhecerem suas agruras e sofrimentos. Pessoas interessantes sabem que viver é uma empreitada difícil para todo o mundo. Assim, não julgam ou criticam as pessoas de modo leviano.



São interessantes os que agem com certa autonomia, não respeitando as normas seguidas por "todo o mundo". A ousadia instiga a curiosidade!



Não deixa de ser curioso constatar que aquelas pessoas que "se acham" e costumam rebaixar seus parceiros são justamente as mais ciumentas. Algumas pessoas inseguras tratam de rebaixar seus parceiros como estratégia: aí eles ficariam sem auto-estima suficiente para abandoná-los! Os que se empenham tanto em diminuir seus parceiros devem ter por eles enorme consideração! Isso explicaria porque manifestam tanto ciúme.



Todos temos nossas inseguranças, dúvidas acerca de quanto valemos. Porém, há muitas maneiras de agir que não a de denegrir nossos parceiros. Impossível não nos sentirmos inseguros frente a certas situações. Podemos escondê-la com "estratégias" ou aceitá-la com classe e dignidade.



Agir com dignidade diante da insegurança que sentimos em relação à admiração que despertamos no parceiro implica tolerar o risco de perdê-lo. Agir com dignidade diante do ciúme e das inseguranças sentimentais é "apenas" um exemplo de como convém se posicionar diante das incertezas!



Talvez devamos chamar de dignidade à postura serena que nos cabe diante das situações da vida sobre as quais não temos direito de interferir. Agir com dignidade diante dos riscos sentimentais é não tomar qualquer atitude que restrinja a liberdade do parceiro, custe o quanto custar.



O ciúme é uma das emoções mais difíceis de serem controladas mesmo que sejamos criaturas determinadas e seja essa nossa disposição racional. Para o ciúme, assim como para tantas outros conflitos entre razão e emoções, não existe solução definitiva. O que existe é "administração"!



Muitas pessoas tratam as relações afetivas como transitórias, descartáveis. Eu me pergunto: o que é preciso fazer para que sejam duradouras?



O principal ingrediente das relações duradouras é que elas são fundamentadas nas afinidades, especialmente no que diz respeito ao caráter. Afora a questão escolha do parceiro, temos que pensar bem no que se pode esperar do amor: junto do amado, nos sentimos aconchegados, em paz.



Quem espera que o amor seja o sentimento que irá proporcionar emoções fortes, aventuras sensacionais, será tomados por grande frustração! O cuidado principal para os que pretendem construir elos duradouros reside na escolha do parceiro: é melhor pensar que as pessoas não mudam!



As historias de amor só são emocionantes enquanto elas não se consumam em função dos obstáculos externos. Depois do final feliz, vem a paz. Os parceiros que entendem que o amor é o que os une e fortalece buscam, juntos ou individualmente, os prazeres das aventuras no lugar certo!



Parceiro bem escolhido, consciência do que se pode esperar do amor, respeito pelas diferenças: eis a base para ser feliz no amor para sempre.



É preciso cuidado com as profecias que se auto-realizam: quando se pensa que o amor "é eterno enquanto dura", é isso que acaba acontecendo! Um relacionamento amoroso estável, de boa qualidade e duradouro também passa por momentos difíceis. Isso não é sinal de que o amor terminou.



Ao longo de décadas de convívio, o amor irá variar na intensidade. O sentimento é como a cotação de uma ação: umas vezes cai e outras sobe! Uma causa de desgaste nas relações de qualidade (sempre entre pessoas honestas) é a diferença de opinião em relação a algum assunto sério.



As divergências devem ser tratadas com delicadeza. Gente hojesta não muda de opinião facilmente (e nem devem). É preciso aprender a negociar. Divergência de opinião não pode ser tratada como ofensa grave: pessoas imaturas se sentem traídas quando suas idéias não são compartilhadas. As divergências desgastam momentaneamente, mas é mancha que lavando desaparece. Restabelecida a harmonia, a plenitude sentimental reaparece.



Cuidado com as pessoas muito agradáveis e simpáticas, aquelas que nos cativam rapidamente: é fácil confiar nelas. Nem sempre são sinceras. A pessoa cativante e de caráter duvidoso irá se mostrar como amiga dedicada e leal. Só aos poucos surgirá sua verdadeira face interesseira.



Depois de termos sido plenamente seduzidos é que surgirá a verdadeira intenção desses falsos amigos (ou namorados): levar alguma vantagem! A dor que se experimenta por força da deslealdade de alguém que conquistou nossa confiança é das maiores. Nos sentimos enganados, traídos. Ao sermos enganados por alguém que não conquistou toda nossa confiança, a dor que sentimos é menor: a traição já era uma das possibilidades!






As pessoas do bem cometem sempre esse grave engano: usar a si como base para avaliar todos os outros. Boa parte deles tem segundas intenções. Para evitar equívocos derivados da ingenuidade convém não confiarmos tanto na primeira impressão que temos daqueles que acabamos de conhecer.



* Flávio Gikovate é um psiquiatra que sigo no Twitter (@Flavio_Gikovate). Este post é uma compilação simples, do tipo copia e colagem, dos tweets que ele postou entre os dias 3/6 e 10/6 (12:02). Trata-se apenas de um ponto de vista de um psiquiatra, que acho interessante para pensar nas relações, em especial nas amorosas, ainda mais na véspera do Valentine's Day brasileiro...

domingo, 5 de junho de 2011

Caso São Bento: entender o cotidiano das relações escola/família para ir além da punição e da vingança

Na sexta pela manhã, estava voltando de uma caminhada pela Lagoa quando, ao acessar meu mural no Facebook pelo celular, acabei por me deparar com um post da antropóloga Alba Zaluar que remetia a um caso acontecido no colégio São Bento, trazendo uma “carta dos pais de um menino de 6 anos agredido no CSB” (http://www.facebook.com/notes/adriana-baron-silva-ramos/carta-dos-pais-do-menino-de-6-anos-agredido-no-csb/232961413386120).

Como estou desempenhando a função de professor do módulo de Epistemologia da Educação do curso Administração Escolar e Coordenação Pedagógica na pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida, Campus Barra, cuja sessão final se realizou ontem, decidi inserir este caso em uma parte da sessão de aula, a fim de remeter ao debate acerca da interface entre família e escola na contemporaneidade. Houve cerca de 40 minutos entre a exposição comentada da carta e o debate com a turma.

Durante o debate os alunos mencionaram que o Colégio havia se posicionado em nota (http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/06/01/colegio-sao-bento-afirma-em-nota-que-nao-vai-expulsar-adolescente-acusado-de-agredir-aluno-de-6-anos-924588645.asp), a qual só li agora, que elaboro esta postagem, em função de uma proposta que partiu de Roberto Mosca Júnior, colega de longa data, professor de sociologia no ensino médio, pesquisador, blogueiro, que no momento está “dentro” do Colégio São Bento, desempenhando a função/papel de professor.

Enfim, o objetivo aqui não é de julgar o colégio, muito menos de chegar à verdade, mas tão somente criar condições de debater um caso que extrapolou a interface família/escola, chamando atenção e gerando inconformismo em relação ao caso.

Desta forma, vou começar com uma síntese das duas provocações que fiz à turma, e uma sequência de tópicos que resumem os pontos de vista que compuseram o contexto de discussão. Desta forma, acredito que possamos, eu e Mosca (entendendo tanto “eu”, quanto “ele” como redes de subjetividades, valores e sujeitos que estão interligados neste processo, desde que queira participar).

As duas posições provocativas que deram início à discussão, baseadas apenas na carta dos pais do aluno, foram as seguintes:

1) Considerando o conteúdo da carta, a escola procurou mapear as informações que podiam servir de base para entender o que havia acontecido, de forma a contemplar diferentes pontos de vista (alunos em conflito, inspetores, demais atores) se posicionar em relação ao acontecido, bem como de contactar a família do agredido, de forma que esta não se sentisse enganada pela escola?

2) Mesmo considerando a instabilidade emocional presente no texto, até que ponto a postura destes pais revela expectativas de que a escola seja a principal formadora de valores dos filhos (em especial pela referência à ética e moral, elementos que a família, a meu ver, configura-se como principal “instituição” responsável...), bem como promove uma estigmatização do agressor e uma sede de vingança (lembrei do filme Dogville...), cujas conseqüências não me parecem ser lá muito “positivas”?

Eis os tópicos trazidos pelo debate na turma, aos quais procuro acrescentar uma ou outra observação. Aqui optei por manter o anonimato dos alunos que debateram, deixando a eles a opção de escolher (ou não) se posicionar na medida em que esse debate se alastre pelos murais do Facebook (ou não...). Cabe destacar que, como o objetivo é fomentar um debate, mais do que assertivas, estes tópicos configuram questões:

·         Num primeiro momento, há uma tendência de apontar um erro da escola. No entanto, pragmaticamente este “erro” não pode ser visto como uma incapacidade de agir em uma situação como esta, especialmente por não ter condições de mapear as redes de informação que circulam fora dos canais convencionais (como os comentários e fofocas que devem ter tomado conta daquele contexto de interação que é o colégio...)? Será que o colégio poderia ter condições de assumir uma “fragilidade” como esta na medida em que está inserida no que pode ser visto como um mercado, onde a reputação vale muito?

·         Os pais desempenham uma dramatização. Sem dúvida, mas essa dramatização pode ser complexificada e ampliada se entendermos e inserirmos em um plano analítico todo o cenário e atores que desempenham suas ações, nos moldes do que propõe a corrente do interacionismo simbólico na sociologia?

·         Neste sentido, a passagem da carta dos pais que remete à falta de devida atenção dos “inspetores” traduz uma ausência de profissionais preparados para lidar com situações de imprevisibilidade e conflito? Mas como manter profissionais deste tipo como instrutores, quando dois destes profissionais podem ser remunerados pela mensalidade paga por um aluno? Até que ponto, existe interesse em investir neste mapeamento das redes de sociabilidade em escolas que cobram mensalidades capazes de atrair apenas uma “clientela” de altíssima renda familiar? Quanto paga um aluno do São Bento para usufruir de toda a qualidade oferecida/esperada? Qual a proporção de instrutores por aluno neste colégio? Quais são as orientações para os conflitos que são eminentes em um recreio, por exemplo, momento em que convivem alunos de diferentes idades e desenvolvimento corporal?

·         Quando a escola remete a uma “brincadeira” ou “acidente” (um tombo...), não se configura aí uma forma de “justificativa perfeita” para encobrir uma incapacidade da escola (e quais instituições não apresentam incapacidades? Tomara que consigam dar conta quando identificada...), na medida em que as brincadeiras são totalmente passíveis de diferentes interpretações (veja isso na noção de sociabilidade agonística, exposta em http://lidadiaria.blogspot.com/2010/11/construcao-da-nocao-de-sociabilidade.html), bem como os acidentes não são passíveis de prevenção?

·         Até que ponto o colégio buscou dialogar com as famílias frente a frente, dando chance de estabelecer uma pedagogia com base na justiça restaurativa, ou só tratou de se “livrar do problema”? Será que a escola tentou o diálogo e a família do agredido não se colocou à disposição para tal? Não cabe a mim, estabelecer qual a postura adequada de qualquer parte em questão, tendo em vista que os elementos que não aparecem podem mudar todo o cenário que estava colocado pela carta dos pais, lembrando que na discussão realizada é que fui saber da nota veiculada pelo colégio.

·         A discussão na turma da pós encaminhou para entender como foi tratado o problema, a partir da visão dos pais do aluno que sofreu dano físico. Logo, como comunicar para a família mediante a incapacidade de mapear as circunstâncias que caracterizam a situação de agressão?

·         A reação das 100 famílias que assinam a resposta do colégio ao fato (quando este extrapolou sua esfera de controle) não mostram a capacidade de mobilização de redes desta instituição que é o São Bento, acionando suas redes de contatos pessoais e institucionais, de forma a contra-balancear o incômodo gerado pelo lastro deixado pelo “vazamento” do problema para a “sociedade em geral” pela publicização dada à carta dos pais, afetando a reputação do colégio no mercado? Neste sentido, o colégio deixou a “bomba” que já havia estourado para “desarmar” as que poderiam explodir na seqüência”?

·         Até que ponto este caso ganhou a esfera pública por ter acontecido em uma escola que atende uma classe social de alto poder aquisitivo? Aqui a turma assinala, a meu ver com muita propriedade, que situações semelhantes ou mais graves (em termos de dolo...) acontecem diariamente nas redes públicas, por exemplo, e não recebem a devida atenção. Desta forma, por que não utilizar este caso, que gerou discussões controversas, para pensar como lidar com conflitos como estes em diferentes contextos?

Bem, não espero respostas imediatas, nem certezas, do Roberto ou de quem quer que seja. O objetivo é instaurar um debate amplo, geral e irrestrito nos murais do Facebook, bem como nos blogs (Roberto mantém um interessante: http://robertomoscajunior1972.wordpress.com/), a fim de buscar maior atenção ao cotidiano das relações que se configuram entre as escolas e as famílias, como chave para entender os conflitos como possibilidade pedagógica.

sábado, 4 de junho de 2011

Uma visão sobre os ciclos de comportamento público-privado-público de Albert Hirschman

A perspectiva teórica de Albert Hirschman guarda sintonia com a proposta neo-moderna (ALEXANDER, 1995) porque este autor abordou a decadência do padrão radical-coletivista heróico dominante nos anos 1960 sem ser influenciado pelo vazio da morte dos sujeitos e do simulacro característicos das teorias pós-modernas que predominaram entre o fim dos anos 1970, quando o autor escreveu, e o início dos anos 1990.
Com a abordagem do ciclo de comportamento privado-público-privado, Hirschman (1983) enfatiza a existência de oscilações nas sociedades ocidentais contemporâneas entre períodos de intensa preocupação com questões públicas e outros caracterizados pelo maior envolvimento com o bem-estar individual. A dicotomia público/privado pode ser entendida como uma competição permanente pelo tempo e atenção dos indivíduos, e tais oscilações seriam conseqüências da mudança de ênfase da vida pública para a vida privada[1].

A partir de uma análise micro-social, o autor rejeita a possibilidade de perda do espaço público, considerando que as mudanças coletivas são determinadas por fatores endógenos, ou seja, um ciclo se origina naquele que o antecede[2]. Na medida em que as ações na esfera privada fazem parte de um ciclo privado-público-privado, elas tendem a voltar a pender para as ações coletivistas, ainda que espasmódicas, o que a torna uma abordagem importante para entender as ações políticas na esfera do consumo.

As oscilações entre períodos de intensa preocupação com questões públicas e outros de quase total concentração no desenvolvimento e bem-estar individuais podem ser entendidas a partir das opções de afastamento (saída) ou manifestação (voz) de grandes massas de indivíduos que avaliam seus envolvimentos em uma das duas esferas.  Desta forma, Hirschman (1983) constrói uma fenomenologia de engajamentos e decepções que considera tanto a dedicação aos atos de consumo privado quanto o envolvimento em questões públicas como práticas que geram satisfação e decepção.

Desta forma, o ciclo privado-público-privado de comportamento coletivo compreende duas mudanças fundamentais e cíclicas ao longo do tempo. A primeira é a passagem da dedicação às atividades privadas para a dedicação às atividades da esfera pública. As atitudes de afastamento e manifestação surgem como reações à decepção com a dedicação às atividades de consumo em busca da felicidade, que, frequentemente, desembocam em ações na esfera pública.

A segunda envolve a decepção com o processo de participação na vida pública na medida em que os indivíduos que se dedicam a atividades públicas não distinguem claramente entre lutas e conquistas, ou entre custos e benefícios, das ações coletivas. Desta forma, a própria luta pode ser vista como benefício da dedicação a uma atividade política quando esta é considerada agradável e realizadora do desenvolvimento individual.

Entretanto, Hirschman (1983) mostra como a dedicação em ações coletivas pode se tornar excessiva e frustrante, causando decepção, especialmente quando estas atividades tomam mais tempo do que um indivíduo esperava antes de se envolver com elas. Este erro de projeção dos indivíduos, entre a expectativa de uma atividade agradável e a experiência real, faz com que eles retornem à esfera privada, fechando o ciclo privado-público-privado.

O autor entende que as pessoas tendem a subestimar o tempo necessário para atingir objetivos em atividades públicas. Isso acontece por conta de ilusões, tais como as suposições de que as idéias de uma causa serão facilmente assimiladas e seus pontos de vista são os únicos a fazer sentido; assim como o estabelecimento de metas utópicas e a conseqüente perda de controle dos rumos previstos, com a descoberta de que uma atividade envolvente pode levar ao vício e provocar reações para se livrar desta dependência ao reordenar suas vontades de segunda ordem. Neste sentido, as mudanças da vida privada para a pública e seu retorno àquela são marcadas por expectativas exageradas, total fascinação e súbitas reviravoltas.

Hirschman (1983) assinala que a individualização corresponde a uma tendência de ocupação total da vida por atividades privadas, que não deixa espaço para as atividades de natureza pública, desestimulando, assim, o envolvimento dos indivíduos em assuntos públicos. Ao mesmo tempo, chama atenção para o papel das instituições políticas no sentido de impedir a manifestação da intensidade total dos sentimentos dos cidadãos.

Neste sentido, a instituição democrática do voto, parte necessária, integrante e central do processo democrático, também pode gerar decepção e despolitização. O voto garante a todos uma parcela mínima no processo de decisão pública e estabelece um teto máximo que não permite aos cidadãos registrarem as diferentes intensidades de percepção das suas convicções e opiniões políticas. Hirschman (1983) enfatiza a ambigüidade desta instituição que, se por um lado, é elemento essencial de uma estrutura institucional de defesa contra um estado excessivamente repressivo, por outro, serve como proteção contra uma coletividade excessivamente expressiva.

O autor acredita que a apatia política e a decepção com a ação política são socialmente induzidas quando as decisões políticas importantes são tomadas somente através do voto. A inadequação do voto como expressão de sentimentos políticos fica evidente com a ocorrência de outras formas de ação política, tais como greves, passeatas, atos e abaixo-assinados, toda vez que ressurgem sentimentos políticos mais exacerbados.

Partindo da idéia, desenvolvida por Adam Smith e boa parte do pensamento liberal, de que ganhos e satisfações privados contribuem para a felicidade pública, Hirschman (1983) entende que a atração da vida privada passa pela capacidade de tolerância que esta esfera possui em relação à incorporação de motivos públicos. Por outro lado, a hipocrisia da atividade pública torna o deslocamento em direção à esfera privada uma forma de contato com a realidade, a sinceridade e a humildade quando a busca de poder passa a ser percebida pelos indivíduos como meta exclusiva da atividade pública.

Assim, a separação entre privado e público surge, simultaneamente, como característica, problema e dilema das sociedades contemporâneas.



[1] A partir do século XIX, a luta por interesses materiais particulares tornou-se uma conduta humana legítima. Trata-se de uma opção frente ao intenso envolvimento em questões da esfera pública, que passou a ser vista como “uma arena privilegiada para as mais perigosas paixões do homem, como ambição, inveja e a irresponsável perseguição ao poder e à glória” (HIRSCHMAN, 1983, p.12).
[2] A ênfase de Hirschman (1983) em fatores endógenos não o leva a desconsiderar a importância da história e de fatores exógenos (grau/mudanças das pressões e repressões externas) para entender mudanças de comportamento coletivo.